segunda-feira, 25 de maio de 2026

ARTIGO DE OPINIÃO - 9 ANO


TAREFA DO DIA 25/05/26 - LEIA NOVAMENTE O ARTIGO E RESPONDA EM SEU CADERNO AS PERGUNTAS:

Dependência das telas: um problema cada vez mais presente entre os adolescentes

 Nos últimos anos, o uso da tecnologia passou a fazer parte da rotina da maioria dos adolescentes brasileiros. Celulares, redes sociais, jogos online e aplicativos de vídeos tornaram-se ferramentas constantes de entretenimento e comunicação. Entretanto, embora esses recursos tragam praticidade e acesso rápido à informação, o uso excessivo das telas tem provocado consequências preocupantes para a saúde mental, para o rendimento escolar e para as relações sociais dos jovens.

Nesse cenário, é importante destacar que a dependência das telas afeta diretamente o equilíbrio emocional dos adolescentes. O sociólogo Zygmunt Bauman afirma que a sociedade contemporânea vive relações cada vez mais superficiais e imediatas, realidade intensificada pelas redes sociais. Nesse contexto, muitos jovens passam horas conectados buscando aprovação virtual, comparando suas vidas à de influenciadores digitais e consumindo conteúdos de maneira exagerada. Como consequência, aumentam os casos de ansiedade, baixa autoestima e insegurança emocional entre adolescentes.

Além disso, o excesso de tempo diante das telas prejudica o desenvolvimento escolar e social. Muitos estudantes apresentam dificuldade de concentração, redução do hábito da leitura e perda de interesse pelas atividades presenciais. O filósofo Byung-Chul Han, ao discutir a “sociedade do cansaço”, explica que o excesso de estímulos e informações pode gerar esgotamento mental e dificuldade de atenção. Isso pode ser percebido quando jovens não conseguem permanecer poucos minutos sem olhar o celular, inclusive durante aulas, refeições ou conversas familiares. Dessa forma, a dependência tecnológica interfere negativamente tanto na aprendizagem quanto na convivência social.

Outro aspecto preocupante está relacionado à falta de controle sobre o uso das plataformas digitais. Aplicativos como TikTok e outras redes sociais são desenvolvidos para prender a atenção dos usuários por longos períodos, utilizando vídeos curtos, notificações constantes e conteúdos personalizados. Consequentemente, muitos adolescentes acabam substituindo momentos de lazer saudável, prática esportiva e convivência familiar pelo uso contínuo do celular. Aos poucos, cria-se um ciclo de dependência que dificulta o desenvolvimento de hábitos equilibrados e saudáveis.

Portanto, torna-se necessário ampliar o debate sobre os impactos da dependência das telas entre os adolescentes. A tecnologia não deve ser vista como inimiga, mas seu uso precisa ocorrer de forma consciente e equilibrada. Assim, família, escola e sociedade possuem papel fundamental na construção de uma educação digital responsável, capaz de promover saúde mental, autonomia e relações sociais mais saudáveis entre os jovens.

                                                                           (Professora Patrícia Ortelhado) 

Para responder e treinar sua criticidade:

  1.   Retire do texto uma frase que demonstre posicionamento crítico do autor.
  2. Você acredita que as telas prejudicam mais ou ajudam mais os adolescentes? Justifique.
  3.  Cite um efeito positivo e um efeito negativo das redes sociais.
  4.     Se você fosse acrescentar outro argumento ao artigo, qual seria?
  5.   O que normalmente aparece na introdução de um artigo de opinião?
  6.   O que deve aparecer nos parágrafos de desenvolvimento?
  7.    Qual é a função da conclusão em um artigo de opinião?
  8.     Quantas horas por dia você acredita passar no celular?
  9.     Você considera seu uso das telas equilibrado? Explique. 


terça-feira, 17 de março de 2026

REDAÇÃO JOVEM SENADOR 2026

 

Sua redação pode te levar ao Senado

seja o próximo Jovem Senador de MS

      
O programa Jovem Senador surgiu em 2011, como iniciativa institucional do Senado em promover conhecimento sobre práticas legislativas e política parlamentar. Estudantes do ensino médio da rede pública de todo o Brasil podem participar do concurso de redação, que seleciona 27 participantes — um de cada unidade da federação — para integrar a Semana de Vivência Legislativa, onde apresentam sugestões. Se aceitas pela Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH), as propostas passam a tramitar como projetos que, se forem aprovados e sancionados, viram leis.

O tema deste ano é:

"Democracia nas redes sociais: como construir um debate saudável”

Explicando a proposta do Senado você precisa escrever um texto dissertativo-argumentativo que lhe faça refletir e os seus leitores sobre:

  • o papel das redes sociais na democracia

  • a importância do debate respeitoso

  • os riscos da desinformação e do discurso de ódio

  • a necessidade de educação midiática

Faça seu rascunho, sua versão final e entregue como atividade avaliativa do bimestre na disciplina de Leitura e Produção Textual.
Data final: 15/04 na folha do concurso da redação.

segunda-feira, 9 de março de 2026

CRÔNICA ARGUMENTATIVA

 



CRÔNICA 1 

Notícia de jornal

Leio no jornal a notícia de que um homem morreu de fome. Um homem de cor branca, trinta anos presumíveis, pobremente vestido, morreu de fome, sem socorros, em pleno centro da cidade, permanecendo deitado na calçada durante setenta e duas horas, para finalmente morrer de fome.

Morreu de fome. Depois de insistentes pedidos de comerciantes, uma ambulância do Pronto Socorro e uma radiopatrulha foram ao local, mas regressaram sem prestar auxílio ao homem, que acabou morrendo de fome.

Um homem que morreu de fome. O comissário de plantão (um homem) afirmou que o caso (morrer de fome) era alçada da Delegacia de Mendicância, especialista em homens que morrem de fome. E o homem morreu de fome.

O corpo do homem que morreu de fome foi recolhido ao Instituto Médico Legal sem ser identificado. Nada se sabe dele, senão que morreu de fome. Um homem morre de fome em plena rua, entre centenas de passantes. Um homem caído na rua. Um bêbado. Um vagabundo. Um mendigo, um anormal, um tarado, um pária, um marginal, um proscrito, um bicho, uma coisa – não é homem. E os outros homens cumprem deu destino de passantes, que é o de passar. Durante setenta e duas horas todos passam, ao lado do homem que morre de fome, com um olhar de nojo, desdém, inquietação e até mesmo piedade, ou sem olhar nenhum, e o homem continua morrendo de fome, sozinho, isolado, perdido entre os homens, sem socorro e sem perdão.

Não é de alçada do comissário, nem do hospital, nem da radiopatrulha, por que haveria de ser da minha alçada? Que é que eu tenho com isso? Deixa o homem morrer de fome.

E o homem morre de fome. De trinta anos presumíveis. Pobremente vestido. Morreu de fome, diz o jornal. Louve-se a insistência dos comerciantes, que jamais morrerão de fome, pedindo providências às autoridades. As autoridades nada mais puderam fazer senão remover o corpo do homem. Deviam deixar que apodrecesse, para escarmento dos outros homens. Nada mais puderam fazer senão esperar que morresse de fome.

E ontem, depois de setenta e duas horas de inanição em plena rua, no centro mais movimentado da cidade do Rio de Janeiro, um homem morreu de fome.

Morreu de fome.

(Fernando Sabino. A mulher do vizinho. 17 ed. Rio de Janeiro: Record, 1997.)


Crônica 2

A CARA DE PAU DO BRASILEIRO

           A honestidade do brasileiro é muito questionável. Claro que não podemos generalizar, mas faz parte do povo ter esse jeito malandro.
            Outro dia, quando eu estava conversando com uma amiga minha, ela me contou que adorava viajar com a avó dela. Diferente do que você imagina, ela não gostava de ter uma companhia materna, mas sim de não ter que encarar esperas durante a viagem. “A melhor parte é no embarque, quando vemos aquela fila gigantesca, típica de Guarulhos, mas, como ela é idosa, podemos entrar na frente.
            Acho que todos nós já nos deparamos com alguém assim, não é? Alguém que pagou pela carteira de motorista ou por um diploma, a mulher que fingiu estar grávida, etc. Eu, pelo menos, sempre me deparo com esse tipo de situação no Shopping Paulista, por exemplo, naquelas vagas preferenciais pintadas perto do elevador. Ali é um fingimento e oportunismo só. Na minha escola, também era comum que os estudantes se fizessem de doentes para utilizar o único elevador.
            Eu acredito que deve haver privilégios para idosos, gestantes e deficientes, claro, mas também acho que faz parte do brasileiro tirar proveito dessas situações e que, muitas vezes, nos falta integridade e honestidade. Lá fora, em alguns outros países, é muito difícil ver alguém fingindo estar com o pé quebrado, por exemplo, mas aqui não. Aqui as pessoas mentem e se aproveitam das situações. Olhe só a corrupção escancarada no Brasil, que é criticada quando acontece no alto escalão, mas que, quando se trata de um exame de direção, poucos veem o problema.
            Você agora deve estar pensando que eu sou uma daquelas que só vê defeito nos brasileiros, não é mesmo? Mas não, eu sinceramente acho que nós temos muitas qualidades também, mas, infelizmente, já nascemos com um jeito malandro e cara de pau. Aposto que você sabe muito bem do que estou falando.

https://colband.net.br/2017/05/02/cronica-argumentativa/



Conversando sobre as crônicas...

Você acabou de ler duas crônicas do tipo argumentativa. 

A crônica argumentativa é um gênero textual híbrido, curto e jornalístico, que une a leveza da narração cotidiana com a defesa de um ponto de vista pessoal. Aborda temas contemporâneos com linguagem simples, utilizando humor, ironia e subjetividade para provocar reflexão, aproximando-se do artigo de opinião. 

Principais Características:

        Temática do cotidiano: Baseia-se em fatos comuns ou atuais.

        Argumentação subjetiva: O autor expõe sua opinião e tenta persuadir o leitor, mas de forma mais literária e artística que um artigo de opinião tradicional.

        Estrutura simples: Geralmente organizada em introdução (apresentação do fato), desenvolvimento (argumentação) e conclusão (desfecho reflexivo)

        Linguagem: Clara, objetiva e frequentemente coloquial.

        Recursos: Uso de ironia, humor, metáforas e perguntas retóricas para engajar o leitor


Compreensão inicial do texto - crônica 2

  1. Qual é o tema principal abordado na crônica 2?

  2. Segundo a autora, qual característica do comportamento de alguns brasileiros é criticada no texto?

  3. O que a amiga da narradora disse sobre viajar com a avó? Por que isso era vantajoso para ela?

  4. Que exemplos a autora apresenta para mostrar situações em que pessoas tentam levar vantagem?

  5. Em que lugar a autora diz observar frequentemente esse tipo de comportamento?

    Análise do ponto de vista da autora

    1. Qual é a opinião da autora sobre o comportamento de algumas pessoas em relação às regras e aos privilégios?

    2. A autora afirma que todos os brasileiros são desonestos? Justifique sua resposta com base no texto.

    3. Por que a autora menciona a corrupção no alto escalão político? O que ela quer comparar com isso?

    4. No trecho “Claro que não podemos generalizar”, o que a autora quer dizer com essa afirmação?


     Interpretação e reflexão

  1. O que significa a expressão “cara de pau” no contexto da crônica?

  2. Você concorda com a ideia de que algumas pessoas tentam tirar vantagem de situações no cotidiano? Explique.

  3. Na sua opinião, por que algumas pessoas agem dessa forma?

  4. Você já presenciou alguma situação parecida com as descritas no texto? Conte.

TAREFA DE CASA

Análise do gênero textual

  1. Por que esse texto pode ser considerado uma crônica?

  2. O texto utiliza exemplos do cotidiano para discutir um comportamento social. Que efeito isso produz no leitor?

Produção reflexiva 

  1. Na sua opinião, atitudes como furar fila, mentir para conseguir vantagens ou desrespeitar regras podem trazer consequências para a sociedade? Explique.

terça-feira, 4 de novembro de 2025

Minha escrevivência "Olhos que contam"

Modelo para a produção textual - Minha escrevivência "Olhos que contam"

Olhos de Mãe

As mãos que me criaram eram as mais macias que já tocou minha pele — macias como reza, como nuvem guardada no peito. Meu abrigo era o colo dela; meu leite, seu amor derramado até quase meus cinco anos. Dormia em seus braços, os dedos procurando o peito, pedindo aconchego com a inocência e quando não pude mais mamar, foi difícil desapegar, então, como só criança sabe dizer:

— Mamãe, deixa eu só pegar!

E ela deixava. E eu dormia segura, como quem sabe que no mundo existe um lugar que nunca cai.

Ela era Florentina — nome de flor e de força. Cabelos crespos, os dela; lisos e loiros, os meus. Mestiçagem escrita no corpo, destino costurado pela história de um país.

Florentina era mulher de dons: fazia o melhor biju do mundo, me carregava como se eu fosse leve feito espuma, protegia como leoa que não permite que o tempo ou a fome encostem nos seus.

Aos cinco anos, fui eu quem determinou que era hora de ir pra escola. Ela sorriu, orgulhosa; me matriculou. Criança, eu só precisava ser criança — até que a doença chegou.

Tudo ficou silencioso dentro de nós. Aos sete, deixei de dormir nos braços que me eram mundo. A infância, que antes corria descalça, aprendeu corrido a cozinhar, lavar, cuidar.
Aos oito, já era pequena dona de casa. E aos doze, minha mãe partiu.
Partiu deixando no ar o cheiro do biju, a ternura das rezas, e uma força negra, doce e sábia que mora na minha pele até hoje.

Cresci.

E, quando meu filho adormece em meus braços e sussurra que ali é o melhor lugar do mundo, eu beijo sua testa e digo baixinho:

— Eu sei, meu filho. Também vivi isso com minha mãezinha.

Porque o tempo passa, o corpo cresce, o mundo muda — mas os olhos d’água das mães que amam seguem brilhando no corpo dos filhos que lembram.

 (Patrícia Ortelhado)

 

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

LENDO CONCEIÇÃO EVARISTO - TEXTO Olhos d’água

 

Olhos d’água

Uma noite, há anos, acordei bruscamente e uma estranha pergunta explodiu de minha boca. De que cor eram os olhos de minha mãe? Atordoada custei reconhecer o quarto da nova casa em que estava morando e não conseguia me lembrar como havia chegado até ali. E a insistente pergunta, martelando, martelando... De que cor eram os olhos de minha mãe? Aquela indagação havia surgido há dias, há meses, posso dizer. Entre um afazer e outro, eu me pegava pensando de que cor seriam os olhos de minha mãe. E o que a princípio tinha sido um mero pensamento interrogativo, naquela noite se transformou em uma dolorosa pergunta carregada de um tom acusatório. Então, eu não sabia de que cor eram os olhos de minha mãe?

Sendo a primeira de sete filhas, desde cedo, busquei dar conta de minhas próprias dificuldades, cresci rápido, passando por uma breve adolescência. Sempre ao lado de minha mãe aprendi conhecê-la. Decifrava o seu silêncio nas horas de dificuldades, como também sabia reconhecer em seus gestos, prenúncios de possíveis alegrias. Naquele momento, entretanto, me descobria cheia de culpa, por não recordar de que cor seriam os seus olhos. Eu achava tudo muito estranho, pois me lembrava nitidamente de vários detalhes do corpo dela. Da unha encravada do dedo mindinho do pé esquerdo... Da verruga que se perdia no meio da cabeleira crespa e bela... Um dia, brincando de pentear boneca, alegria que a mãe nos dava quando, deixando por uns momentos o lava-lava, o passa-passa das roupagens alheias, se tornava uma grande boneca negra para as filhas, descobrimos uma bolinha escondida bem no couro cabeludo ela. Pensamos que fosse carrapato. A mãe cochilava e uma de minhas irmãs aflita, querendo livrar a boneca-mãe daquele padecer, puxou rápido o bichinho. A mãe e nós rimos e rimos e rimos de nosso engano. A mãe riu tanto das lágrimas escorrerem. Mas, de que cor eram os olhos dela?

Eu me lembrava também de algumas histórias da infância de minha mãe. Ela havia nascido em um lugar perdido no interior de Minas. Ali, as crianças andavam nuas até bem grandinhas. As meninas, assim que os seios começavam a brotar, ganhavam roupas antes dos meninos. Às vezes, as histórias da infância de minha mãe confundiam-se com as de minha própria infância. Lembro-me de que muitas vezes, quando a mãe cozinhava, da panela subia cheiro algum. Era como se cozinhasse ali, apenas o nosso desesperado desejo de alimento. As labaredas, sob a água solitária que fervia na panela cheia de fome, pareciam debochar do vazio do nosso estômago, ignorando nossas bocas infantis em que as línguas brincavam a salivar sonho de comida. E era justamente nos dias de parco ou nenhum alimento que ela mais brincava com as filhas. Nessas ocasiões a brincadeira preferida era aquela em que a mãe era a Senhora, a Rainha. Ela se assentava em seu trono, um pequeno banquinho de madeira. Felizes colhíamos flores cultivadas em um pequeno pedaço de terra que circundava o nosso barraco. Aquelas flores eram depois solenemente distribuídas por seus cabelos, braços e colo. E diante dela fazíamos reverências à Senhora. Postávamos deitadas no chão e batíamos cabeça para a Rainha. Nós, princesas, em volta dela, cantávamos, dançávamos, sorríamos. A mãe só ria, de uma maneira triste e com um sorriso molhado... Mas de que cor eram os olhos de minha mãe? Eu sabia, desde aquela época, que a mãe inventava esse e outros jogos para distrair a nossa fome. E a nossa fome se distraía.

Às vezes, no final da tarde, antes que a noite tomasse conta do tempo, ela se assentava na soleira da porta e juntas ficávamos contemplando as artes das nuvens no céu. Umas viravam carneirinhos; outras, cachorrinhos; algumas, gigantes adormecidos, e havia aquelas que eram só nuvens, algodão doce. A mãe, então, espichava o braço que ia até o céu, colhia aquela nuvem, repartia em pedacinhos e enfiava rápido na boca de cada uma de nós. Tudo tinha de ser muito rápido, antes que a nuvem derretesse e com ela os nossos sonhos se esvaecessem também. Mas, de que cor eram os olhos de minha mãe?

Lembro-me ainda do temor de minha mãe nos dias de fortes chuvas. Em cima da cama, agarrada a nós, ela nos protegia com seu abraço. E com os olhos alagados de pranto balbuciava rezas a Santa Bárbara, temendo que o nosso frágil barraco desabasse sobre nós. E eu não sei se o lamento-pranto de minha mãe, se o barulho da chuva... Sei que tudo me causava a sensação de que a nossa casa balançava ao vento. Nesses momentos os olhos de minha mãe se confundiam com os olhos da natureza. Chovia, chorava! Chorava, chovia! Então, porque eu não conseguia lembrar a cor dos olhos dela?

E naquela noite a pergunta continuava me atormentando. Havia anos que eu estava fora de minha cidade natal. Saíra de minha casa em busca de melhor condição de vida para mim e para minha família: ela e minhas irmãs que tinham ficado para trás. Mas eu nunca esquecera a minha mãe. Reconhecia a importância dela na minha vida, não só dela, mas de minhas tias e todas a mulheres de minha família. E também, já naquela época, eu entoava cantos de louvor a todas nossas ancestrais, que desde a África vinham arando a terra da vida com as suas próprias mãos, palavras e sangue. Não, eu não esqueço essas Senhoras, nossas Yabás, donas de tantas sabedorias. Mas de que cor eram os olhos de minha mãe?

E foi então que, tomada pelo desespero por não me lembrar de que cor seriam os olhos de minha mãe, naquele momento, resolvi deixar tudo e, no outro dia, voltar à cidade em que nasci. Eu precisava buscar o rosto de minha mãe, fixar o meu olhar no dela, para nunca mais esquecer a cor de seus olhos.

E assim fiz. Voltei, aflita, mas satisfeita. Vivia a sensação de estar cumprindo um ritual, em que a oferenda aos Orixás deveria ser descoberta da cor dos olhos de minha mãe.

E quando, após longos dias de viagem para chegar à minha terra, pude contemplar extasiada os olhos de minha mãe, sabem o que vi? Sabem o que vi?

Vi só lágrimas e lágrimas. Entretanto, ela sorria feliz. Mas, eram tantas lágrimas, que eu me perguntei se minha mãe tinha olhos ou rios caudalosos sobre a face? E só então compreendi. Minha mãe trazia, serenamente em si, águas correntezas. Por isso, prantos e prantos a enfeitar o seu rosto. A cor dos olhos de minha mãe era cor de olhos d’água. Águas de Mamãe Oxum! Rios calmos, mas profundos e enganosos para quem contempla a vida apenas pela superfície. Sim, águas de Mamãe Oxum.

Abracei a mãe, encostei meu rosto no dela e pedi proteção. Senti as lágrimas delas se misturarem às minhas.

Hoje, quando já alcancei a cor dos olhos de minha mãe, tento descobrir a cor dos olhos de minha filha. Faço a brincadeira em que os olhos de uma são o espelho dos olhos da outra. E um dia desses me surpreendi com um gesto de minha menina. Quando nós duas estávamos nesse doce jogo, ela tocou suavemente o meu rosto, me contemplando intensamente. E, enquanto jogava o olhar dela no meu, perguntou baixinho, mas tão baixinho como se fosse uma pergunta para ela mesma, ou como estivesse buscando e encontrando a revelação de um mistério ou de um grande segredo. Eu escutei, quando, sussurrando minha filha falou:

Mãe, qual é a cor tão úmida de seus olhos?

(Olhos d’água, p. 15-19)

 

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

CONCEIÇÃO EVARISTO - LEITURA 1 MARIA

 

Maria

Maria estava parada há mais de meia hora no ponto de ônibus. Estava cansada de esperar. Se a distância fosse menor, teria ido a pé. Era preciso mesmo ir se acostumando com a caminhada. Os ônibus estavam aumentando tanto! Além do cansaço, a sacola estava pesada. No dia anterior, no domingo, havia tido festa na casa da patroa. Ela levava para casa os restos. O osso do pernil e as frutas que tinham enfeitado a mesa. Ganhara as frutas e uma gorjeta. O osso a patroa ia jogar fora. Estava feliz, apesar do cansaço. A gorjeta chegara numa hora boa. Os dois filhos menores estavam muito gripados. Precisava comprar xarope e aquele remedinho de desentupir o nariz. Daria para comprar também uma lata de Toddy. As frutas estavam ótimas e havia melão. As crianças nunca tinham comido melão. Será que os meninos gostavam de melão?

A palma de umas de suas mãos doía. Tinha sofrido um corte, bem no meio, enquanto cortava o pernil para a patroa. Que coisa! Faca-laser corta até a vida!

Quando o ônibus apontou lá na esquina, Maria abaixou o corpo, pegando a sacola que estava no chão entra as suas pernas. O ônibus não estava cheio, havia lugares. Ela poderia descansar um pouco, cochilar até a hora da descida. Ao entrar, um homem levantou lá de trás, do último banco, fazendo um sinal para o trocador. Passou em silêncio, pagando a passagem dele e de Maria. Ela reconheceu o homem. Quando tempo, que saudades! Como era difícil continuar a vida sem ele. Maria sentou-se na frente. O homem assentou-se ao lado dela. Ela se lembrou do passado. Do homem deitado com ela. Da vida dos dois no barraco. Dos primeiros enjôos. Da barriga enorme que todos diziam gêmeos, e da alegria dele. Que bom! Nasceu! Era um menino! E haveria de se tornar um homem. Maria viu, sem olhar, que era o pai do seu filho. Ele continuava o mesmo. Bonito, grande, o olhar assustado não se fixando em nada e em ninguém. Sentiu uma mágoa imensa. Por que não podia ser de outra forma? Por que não podiam ser felizes? E o menino, Maria? Como vai o menino? cochichou o homem. Sabe que sinto falta de vocês? Tenho um buraco no peito, tamanha a saudade! Tou sozinho! Não arrumei, não quis mais ninguém. Você já teve outros... outros filhos? A mulher baixou os olhos como que pedindo perdão. É. Ela teve mais dois filhos, mas não tinha ninguém também! Homens também? Eles haveriam de ter outra vida. Com eles tudo haveria de ser diferente. Maria, não te esqueci! Tá tudo aqui no buraco do peito...

O homem falava, mas continuava estático, preso, fixo no banco. Cochichava com Maria as palavras, sem entretanto virar para o lado dela. Ela sabia o que o homem dizia. Ele estava dizendo de dor, de prazer, de alegria, de filho, de vida, de morte, de despedida. Do buraco-saudade no peito dele... Desta vez ele cochichou um pouquinho mais alto. Ela, ainda sem ouvir direito, adivinhou a fala dele: um abraço, um beijo, um carinho no filho. E logo após, levantou rápido sacando a arma. Outro lá atrás gritou que era um assalto. Maria estava com muito medo. Não dos assaltantes. Não da morte. Sim da vida. Tinha três filhos. O mais velho, com onze anos, era filho daquele homem que estava ali na frente com uma arma na mão. O de lá de trás vinha recolhendo tudo. O motorista seguia a viagem. Havia o silêncio de todos no ônibus. Apenas a voz do outro se ouvia pedindo aos passageiros que entregassem tudo rapidamente. O medo da vida em Maria ia aumentando. Meu Deus, como seria a vida dos seus filhos? Era a primeira vez que ela via um assalto no ônibus. Imaginava o terror das pessoas. O comparsa de seu ex-homem passou por ela e não pediu nada. Se fossem outros os assaltantes? Ela teria para dar uma sacola de frutas, um osso de pernil e uma gorjeta de mil cruzeiros. Não tinha relógio algum no braço. Nas mãos nenhum anel ou aliança. Aliás, nas mãos tinha sim! Tinha um profundo corte feito com faca-laser que parecia cortar até a vida.

Os assaltantes desceram rápido. Maria olhou saudosa e desesperada para o primeiro. Foi quando uma voz acordou a coragem dos demais. Alguém gritou que aquela puta safada conhecia os assaltantes. Maria assustou-se. Ela não conhecia assaltante algum. Conhecia o pai do seu primeiro filho. Conhecia o homem que tinha sido dela e que ela ainda amava tanto. Ouviu uma voz: Negra safada, vai ver que estava de coleio com os dois. Outra voz ainda lá do fundo do ônibus acrescentou: Calma gente! Se ela estivesse junto com eles, teria descido também. Alguém argumentou que ela não tinha descido só para disfarçar. Estava mesmo com os ladrões. Foi a única a não ser assaltada. Mentira, eu não fui e não sei porquê. Maria olhou na direção de onde vinha a voz e viu um rapazinho negro e magro, com feições de menino e que relembrava vagamente o seu filho. A primeira voz, a que acordou a coragem de todos, tornou-se um grito: Aquela puta, aquela negra safada estava com os ladrões! O dono da voz levantou e se encaminhou em direção a Maria. A mulher teve medo e raiva. Que merda! Não conhecia assaltante algum. Não devia satisfação a ninguém. Olha só, a negra ainda é atrevida, disse o homem, lascando um tapa no rosto da mulher. Alguém gritou: Lincha! Lincha! Lincha!... Uns passageiros desceram e outros voaram em direção a Maria. O motorista tinha parado o ônibus para defender a passageira: Calma, pessoal! Que loucura é esta? Eu conheço esta mulher de vista. Todos os dias, mais ou menos neste horário, ela toma o ônibus comigo. Está vindo do trabalho, da luta para sustentar os filhos... Lincha! Lincha! Lincha! Maria punha sangue pela boca, pelo nariz e pelos ouvidos. A sacola havia arrebentado e as frutas rolavam pelo chão. Será que os meninos gostam de melão?

Tudo foi tão rápido, tão breve. Maria tinha saudades do seu ex-homem. Por que estavam fazendo isto com ela? O homem havia segredado um abraço, um beijo, um carinho no filho. Ela precisava chegar em casa para transmitir o recado. Estavam todos armados com facas-laser que cortam até a vida. Quando o ônibus esvaziou, quando chegou a polícia, o corpo da mulher já estava todo dilacerado, todo pisoteado.

Maria queria tanto dizer ao filho que o pai havia mandado um abraço, um beijo, um carinho.

(Olhos d’água, p. 39-42).


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terça-feira, 21 de outubro de 2025

PROJETO DE LITERATURA - 4 Bimestre ESCOLA CASTELO BRANCO

 

PROJETO: “Mulheres de Olhos d’Água — Vozes e Resistências na Literatura Negra”

Público-alvo

Turmas vespertino:

  • 1º E e 1º D
  • 2º C
  • 3º C

Ensino Médio – Língua Portuguesa / Literatura

Justificativa

A leitura das obras de Conceição Evaristo permite reconhecer a escrita como ato político e o lugar da mulher negra na literatura brasileira, rompendo com o silenciamento histórico. Por meio da leitura e da análise dos contos escolhidos, os estudantes poderão refletir sobre identidade, ancestralidade, desigualdade e resistência, temas fundamentais para a formação crítica e cidadã.

 Objetivos

  • Valorizar a literatura negra brasileira, destacando a importância da representatividade.
  • Promover a leitura literária crítica e sensível de textos contemporâneos.
  • Estimular a interpretação e expressão artística dos estudantes.
  • Compreender a relação entre vida, memória e identidade nas narrativas femininas.

Obras e contos para leitura:

  1. “Maria” — do livro Olhos d’Água
  2. “Maria do Rosário Imaculada dos Santos” — do livro Insubmissas Lágrimas de Mulheres disponível no Blog – “Leitura vai, escrita vem!”

 Etapas do projeto

1. Contextualização e sensibilização (1 aula)

  • Exibição de uma breve entrevista com Conceição Evaristo (vídeo ou leitura de trecho sobre “escrevivência”).
  • Roda de conversa: “Quem conta a nossa história?”
  • Introdução ao conceito de literatura negra e escrevivência.

2️. Leitura orientada (2 a 3 aulas)

  • Leitura compartilhada dos contos nas turmas.
  • Grupos analisam aspectos como:
    • Protagonismo feminino;
    • Relação entre nome e identidade;
    • Dor e superação;
    • Elementos simbólicos (olhos, água, lágrimas).

3. Produção criativa (2 aulas)
Cada turma escolhe uma linguagem artística para reinterpretar as “Marias”:

  • 1ºs anos → Produção de cartas imaginárias das personagens para suas ancestrais.
  • 2º ano C → Criação de podcast ou sarau literário com leituras dramatizadas dos contos.
  • 3º ano C → Produção de vídeo-documentário curto (3-5 min) com depoimentos sobre mulheres que inspiram suas vidas, intercalando trechos das obras.

4. Exposição final: “As Marias de Conceição em nós” (evento escolar)

  • Exposição dos trabalhos em um corredor literário ou sala temática.
  • Cada turma apresenta seu produto final (cartas, sarau, vídeos).
  • Encerramento com a leitura coletiva do manifesto:

“Escrevivemos porque nossas vozes são rios que nunca secam.”

Produto final sugerido – cada turma ficará livre para escolher

Mostra literária “As Marias de Conceição em Nós”, reunindo:

  • Exposição de cartas e ilustrações;
  • Podcast ou sarau com trechos dos contos;
  • Exibição dos vídeos do 3º ano;
  • Mural coletivo com frases das obras e fotos das apresentações.

 Avaliação

  • Participação nas discussões e leituras;
  • Capacidade de análise crítica e sensível dos textos;
  • Criatividade e engajamento na produção final;
  • Trabalho coletivo e autoria.

 

ARTIGO DE OPINIÃO - 9 ANO

TAREFA DO DIA 25/05/26 - LEIA NOVAMENTE O ARTIGO E RESPONDA EM SEU CADERNO AS PERGUNTAS: Dependência das telas: um problema cada vez mais pr...