terça-feira, 4 de novembro de 2025

Minha escrevivência "Olhos que contam"

Modelo para a produção textual - Minha escrevivência "Olhos que contam"

Olhos de Mãe

As mãos que me criaram eram as mais macias que já tocou minha pele — macias como reza, como nuvem guardada no peito. Meu abrigo era o colo dela; meu leite, seu amor derramado até quase meus cinco anos. Dormia em seus braços, os dedos procurando o peito, pedindo aconchego com a inocência e quando não pude mais mamar, foi difícil desapegar, então, como só criança sabe dizer:

— Mamãe, deixa eu só pegar!

E ela deixava. E eu dormia segura, como quem sabe que no mundo existe um lugar que nunca cai.

Ela era Florentina — nome de flor e de força. Cabelos crespos, os dela; lisos e loiros, os meus. Mestiçagem escrita no corpo, destino costurado pela história de um país.

Florentina era mulher de dons: fazia o melhor biju do mundo, me carregava como se eu fosse leve feito espuma, protegia como leoa que não permite que o tempo ou a fome encostem nos seus.

Aos cinco anos, fui eu quem determinou que era hora de ir pra escola. Ela sorriu, orgulhosa; me matriculou. Criança, eu só precisava ser criança — até que a doença chegou.

Tudo ficou silencioso dentro de nós. Aos sete, deixei de dormir nos braços que me eram mundo. A infância, que antes corria descalça, aprendeu corrido a cozinhar, lavar, cuidar.
Aos oito, já era pequena dona de casa. E aos doze, minha mãe partiu.
Partiu deixando no ar o cheiro do biju, a ternura das rezas, e uma força negra, doce e sábia que mora na minha pele até hoje.

Cresci.

E, quando meu filho adormece em meus braços e sussurra que ali é o melhor lugar do mundo, eu beijo sua testa e digo baixinho:

— Eu sei, meu filho. Também vivi isso com minha mãezinha.

Porque o tempo passa, o corpo cresce, o mundo muda — mas os olhos d’água das mães que amam seguem brilhando no corpo dos filhos que lembram.

 (Patrícia Ortelhado)

 

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