Modelo para a produção textual - Minha escrevivência "Olhos que contam"
Olhos de Mãe
As
mãos que me criaram eram as mais macias que já tocou minha pele — macias como
reza, como nuvem guardada no peito. Meu abrigo era o colo dela; meu leite, seu
amor derramado até quase meus cinco anos. Dormia em seus braços, os dedos
procurando o peito, pedindo aconchego com a inocência e quando não pude mais
mamar, foi difícil desapegar, então, como só criança sabe dizer:
—
Mamãe, deixa eu só pegar!
E
ela deixava. E eu dormia segura, como quem sabe que no mundo existe um lugar
que nunca cai.
Ela
era Florentina — nome de flor e de força. Cabelos crespos, os dela; lisos e
loiros, os meus. Mestiçagem escrita no corpo, destino costurado pela história
de um país.
Florentina
era mulher de dons: fazia o melhor biju do mundo, me carregava como se eu fosse
leve feito espuma, protegia como leoa que não permite que o tempo ou a fome
encostem nos seus.
Aos
cinco anos, fui eu quem determinou que era hora de ir pra escola. Ela sorriu,
orgulhosa; me matriculou. Criança, eu só precisava ser criança — até que a
doença chegou.
Tudo
ficou silencioso dentro de nós. Aos sete, deixei de dormir nos braços que me
eram mundo. A infância, que antes corria descalça, aprendeu corrido a cozinhar,
lavar, cuidar.
Aos oito, já era pequena dona de casa. E aos doze, minha mãe partiu.
Partiu deixando no ar o cheiro do biju, a ternura das rezas, e uma força negra,
doce e sábia que mora na minha pele até hoje.
Cresci.
E,
quando meu filho adormece em meus braços e sussurra que ali é o melhor lugar do
mundo, eu beijo sua testa e digo baixinho:
—
Eu sei, meu filho. Também vivi isso com minha mãezinha.
Porque
o tempo passa, o corpo cresce, o mundo muda — mas os olhos d’água das mães que
amam seguem brilhando no corpo dos filhos que lembram.
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